Índios falam de Belo Monte

Reunião de mais de 300 lideranças indígenas de 18 etnias diferentes da Bacia do Xingu com lideranças do Movimento Xingu Vivo Para Sempre na aldeia Piaraçu (MT) para discutir os impactos que a construção de Belo Monte representa para seus modos de vida. Unidos pelo Xingu, unem forças para resistir à Belo Monte, marcado por ilegalidades no processo de licenciamento ambiental e por violações de direitos humanos.

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De índios a moradores de rua (entrevista com Sandra Terena)

Publicado em 24/07/2011 | Paola Carriel (Gazeta do Povo)

Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo / Justina aumenta a renda da família com a venda de artesanato em Curitiba Justina aumenta a renda da família com a venda de artesanato em Curitiba

Falta de políticas públicas faz população indígena migrar para as cidades, onde fica sem apoio. Projeto de construir casas de passagem não saiu do papel

A falta de políticas públicas para a população indígena faz com que muitos índios se tornem mendigos ou tenham de vender artesanato na rua para sobreviver nas grandes cidades do país. Como não há suporte para que as aldeias sejam sustentáveis, eles se tornam mi­­grantes temporários em grandes centros urbanos, onde muitas vezes dormem na rua. Sem o fortalecimento de ações que garantam sobrevivência digna nas aldeias, uma alternativa seria construir casas de passagem, que seriam usadas quando os índios vão às cidades para vender os artefatos. A iniciativa é promessa de vários municípios, mas não existe previsão para sair do papel.

A medida resolveria apenas uma parte das demandas desta população, que não consegue ter garantidos direitos básicos como alimentação e acesso à saúde. Entre especialistas, é consenso que faltam políticas públicas para os indígenas e que a preocupação da Funai, órgão federal responsável por essa população, é majoritariamente garantir a demarcação de terras. O órgão estaria falhando no suporte à subsistência.

Relatório

Direitos violados cotidianamente

Relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) mostra que os índios no Brasil continuam sendo vítimas de violações de direitos humanos cotidianamente. Foram 60 assassinatos em 2010, além de mais de 152 indígenas ameaçados de morte. Mato Grosso do Sul concentrou 57% dos homicídios. A mortalidade infantil indígena cresceu 513% em relação a 2009. Doenças facilmente tratáveis, como infecções respiratórias, ainda atingem as crianças, o que mostra o acesso precário à saúde. Há também os conflitos por terra, já tradicionais. Além disso, grandes construções, como as usinas hidrelétricas de Jirau, em Rondônia, e Belo Monte, no Pará, afetarão diretamente essa população. Na Região Sul, a principal violação é a falta de assistência, que faz com que famílias inteiras vivam às margens de estradas há mais de uma década. (PC)

Parcerias entre municípios e estados podem gerar políticas

As casas de passagens para indígenas são necessárias nas cidades porque não existe sustentabilidade financeira nas aldeias. A opinião é do coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Pro­teção às Co­­munidades Indígenas do Mi­­nistério Público do Paraná, o procurador de Justiça Luiz Eduardo Canto de Azevedo Bueno. “É essencial mudar a mentalidade dos gestores públicos para que as políticas não sejam apenas criadas pela Funai, mas sim em parceria com estados e municípios”, afirma.

Bueno diz que também é necessário que as empresas privadas e o setor público se sensibilizem para o ingresso dos índios no mercado formal de trabalho. Ele cita como exemplo uma empresa de Pato Branco que emprega 120 indígenas. “Pode­riam ser criados incentivos fiscais para estimular ações semelhantes.”

Vice-presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Roberto Liebgott argumenta que os indígenas que vivem no meio urbano são excluídos das políticas voltadas a essa população. “Não há preocupação por parte do governo em responder essas demandas.” Ele afirma que deveria haver articulação entre todas as esferas de governo e a Funai, mas hoje não há qualquer tipo de diálogo. (PC)

O resultado é que, em boa parte dos casos, os índios têm a posse das terras, mas não conseguem sobreviver apenas da agricultura. O artesanato se torna a única alternativa, mas como os índios não têm dinheiro para se manter nas grandes cidades, acabam se tornando moradores de rua. Muitas vezes o dinheiro não é suficiente nem para a alimentação. As mães não têm com quem deixar os filhos e eles acabam ficando em situação de vulnerabilidade ao acompanhar a família.

É o caso de Justina Generoso, 43 anos, que vem a Curitiba todo fim de mês para vender o artesanato produzido na aldeia em que vive, no Rio das Cobras, em Nova Laranjeiras, região central do Paraná. Durante os cerca de dez dias que permanece na capital, ela dorme na rodoviária em companhia de outras pessoas da tribo. O dinheiro obtido com a venda do artesanato mal dá para a alimentação diária – dela e dos quatro filhos.

Justina, que ficou viúva há mais de uma década, sobrevive com apenas R$ 150 por mês. Dois filhos, de 12 e 14 anos, recebem o Bolsa Família, mas a alimentação vem principalmente da agricultura de subsistência praticada na aldeia. Os garotos mais velhos, com 16 e 24 anos, permanecem na aldeia, sem perspectiva de emprego formal ou educação superior.

Sem perspectiva

No Paraná, a Secretaria de Relações com a Comunidade estuda criar uma casa de passagem em Curitiba, mas o projeto está parado. Em Apucarana, na Região Norte, o Ministério Público Federal (MPF) abriu um inquérito para que a cidade e a Funai construam este equipamento. O terreno já foi doado pelo município, mas o projeto não saiu do papel. O Rio Grande do Sul é pioneiro nesse tipo de iniciativa e possui casas de passagem em Santa Maria e em São Miguel das Missões.

A jornalista Sandra Terena, indígena e coordenadora da ONG Aldeia Brasil, afirma que a construção de casas de passagem poderia também auxiliar em outras demandas. Há índios que precisam ir a grandes cidades para realizar tratamentos de saúde ou completar os estudos. “Somos favoráveis à interação social. Se eles entendem que precisam vir para a cidade, é importante que tenham oportunidade de ficar em um espaço seguro”, afirma.

A situação da população indígena no estado piorou em 2009, quando a Funai transferiu a coordenadoria do estado para Santa Catarina, prejudicando a infraestrutura do órgão no Paraná.

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Advogado de MS condenado por criticar indígenas e indigenismo

Postado por:

http://blogdoambientalismo.com/advogado-de-ms-condenado-por-criticar-indigenas-e-indigenismo/

Em mais uma manifestação do nominalismo jurídico “politicamente correto” que prevalece no País em relação às causas envolvendo questões indígenas, a Justiça Federal de Mato Grosso do Sul condenou a dois anos de prisão o advogado Isaac Duarte de Barros Júnior, de Dourados, pelo crime de racismo contra indígenas. O “crime” foi um artigo do advogado, intitulado «Índios e o Retrocesso», publicado em duas partes no jornal Dourados Agora, em 27-28 de dezembro de 2008. A sentença, inédita no Estado e, talvez, no País, foi publicada em 6 de julho último.

 

Cadê a liberdade de expressão?

A ação criminal contra Barros Júnior foi apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF), pelas críticas à cultura indígena feitas no artigo, usando termos ofensivos. Além desta, o MPF ingressou com uma ação cível por danos morais contra ele, ainda não julgada, na qual foi pedida uma indenização de até R$ 30 milhões (G1.com, 14/07/2011).

O portal G1 entrou em contato com o advogado André Luiz Borges Netto, representante de Barros Júnior, que sofreu um AVC e se encontra internado. Segundo ele, a condenação é exagerada e ambos pretendem recorrer ao Tribunal Regional Federal em São Paulo. O advogado ressaltou também que tudo o que foi mencionado no artigo se encontra dentro da garantia constitucional de liberdade de expressão: «O texto foi bastante severo e crítico em alguns momentos, mas não teve nada de preconceito contra a raça indígena. Estamos muito surpresos e vamos recorrer.»

 

Judiciário parcial

Na verdade, a surpresa atinge apenas quem desconhece a extensão em que o Judiciário brasileiro se encontra contagiado pela agenda ideológica do indigenismo, haja vista a devastação socioeconômica acarretada ao estado de Roraima com a esdrúxula demarcação contínua da reserva indígena Raposa Serra do Sol e o imbróglio envolvendo a expulsão dos residentes na área delimitada para a reserva Maraiwatsede, no vizinho Mato Grosso (MSIa Informa, 15/07/2011).

 

Críticas pertinentes e tempestivas

Os termos usados por Barros Júnior e considerados ofensivos pelo MPF foram “bugrada”, “malandros”, “vadios” e “agitadores”, usados no contexto de uma crítica genérica à política indigenista nacional:

«Precisamos e urge repensarmos a nossa política indigenista no Brasil, principalmente depois que os eternos cientistas burocratas da FUNAI começaram incentivar a perniciosa ocupação de terras produtivas sulmatogrossenses. Pois, pela vontade de alguns antropólogos lotados nessa Repartição Pública e de congressistas sem a mínima criatividade, milhares de acres fecundos podem retornar ao atraso das administrações indígenas. Se essa bobagem prosperar, com os frenéticos funcionários federais demarcando as cognominadas terras indígenas, e se não for combatida essa iniciativa inócua pelas nossas autoridades na esfera federal, os índios tupinambás acabarão declarados donos do bairro carioca de Copacabana e suas praias, enquanto que os índios aymorés serão os novos proprietários do Vale do Anhangabaú paulista; enfim, o resto do nosso território nacional está correndo o risco de regredir e ser declarado uma terra de índios.»

«O mais ridículo dessa retomada das terras, é o modus operandi, que se faz de maneira truculenta e arbitrária. O principio reintegratório da bugrada fundamenta suas bases reintegratórias nas ossadas dos cemitérios supostamente de índios. Portanto, tornou-se o suficiente para se iniciar um processo de reintegração de posse indígena, os aludidos antropólogos encontrarem os restos mortais de algum bugre enterrado n’algum lugar. Acontecendo a exumação cadavérica, depois de periciada, imediatamente, seus descendentes vivos se assenhoram das terras como verdadeiros vândalos, cobrando nelas os pedágios e matando passantes, assim como faziam os ladrões assaltantes emboscados nas estradas do passado.»

 

Prenúncio totalitário?

Palavras contundentes, sem dúvida, mas que, de qualquer maneira, sequer se comparam às múltiplas injustiças e autênticos crimes de lesa-pátria que têm sido cometidos em nome dos princípios ideológicos e dos “compromissos internacionais” que orientam a política indigenista nacional. Pior, se a sentença condenatória contra Barros Júnior for mantida nas instâncias superiores, o País se verá diante da ameaça da censura prévia às opiniões contrárias às políticas oficiais e não ficará longe das práticas de silenciamento judicial de críticos comuns em certas ditaduras.

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“Queremos ser brasileiros sem deixar de ser índios”

Extraído do site:

http://www.conjur.com.br/2011-jul-29/ideias-milenio-daniel-munduruku-escritor-professor-indigena

“Queremos ser brasileiros sem deixar de ser índios”

Entrevista do escritor, filósofo, antropólogo e educador indígena Daniel Munduruku à jornalista Elizabeth Carvalho para o programa Milênio, da Globo News, transmitido em agosto em 11 de julho. O Milênio é  um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30 de terça; 5h30 de quarta; e 7h05 de domingo. Leia, a seguir, a transcrição da entrevista:

Das misturas de raças que faz do Brasil uma nação sem similares no mundo, a nossa porção indígena é ainda hoje a menos conhecida pela sociedade como um todo. Sabemos que quando os europeus chegaram ao território onde se consolidariam depois as fronteiras brasileiras, eles eram cinco milhões. Hoje são menos de 330 mil. Ainda assim é uma população em recuperação demográfica. O processo de demarcação das terras tradicionalmente ocupadas pelos grupos indígenas mesmo que ainda não concluído; a extensão dos serviços públicos de assistência; a força crescente de um movimento de identidade comum a quase 250 etnias que teimam em sobreviver em pleno século XXI, tudo isso vem mudando esse quadro espanando a nossa ignorância. Preconceitos históricos estão caindo por terra. Aos poucos vamos entendendo melhor a nossa pluralidade e reconstruindo a tão mal contada História do Brasil. O índio paraense Daniel Munduruku é um grande artífice deste processo. É um índio doutor. Esudou Filosofia, Psicologia e Antropologia antes de concluir o doutorado em Educação pela USP e optar pelo caminho mais espinhoso da transmissão de seu conhecimento: ensinar os brasileiros brancos a entenderem os brasileiro índios. Autor premiado de 40 livros infantis, Munduruku nos recebeu num sítio deslumbrante em Itapecerica da Serra onde costuma passar as manhãs com crianças das escolas públicas de São Paulo para que descubram um Brasil novo, que vai aos poucos amadurecendo como nação.

Elizabeth Carvalho — ­­­Eu vou começar perguntando sobre essa pintura que você está usando hoje. Essa pintura tem um significado?
Daniel Munduruku — ­Essa pintura a gente faz quando a criança chega para ela perceber que está chegando num lugar diferente. É uma pintura de festa, de encontro. Quando a gente vai encontrar a pessoa, a gente faz essa pintura justamente para ela perceber que é uma externalização daquilo que a gente está sentindo dentro da gente. Isso funciona nas sociedades indígenas em geral para momentos de festa, momento de luto, momento de conflito. O corpo comunica…

Elizabeth Carvalho — ­­­A expressão da emoção através do corpo.
Daniel Munduruku — ­Exatamente. 

Elizabeth Carvalho — ­­­Eu pertenço a uma geração que aprendeu na escola que a História do Brasil começa com o descobrimento, com a chegada da frota de Pedro Álvares Cabral no Brasil e que o principal evento que marca esse descobrimento é uma grande missa rezada na presença de um povo primitivo, pouco afeito ao trabalho e que tem um grande herói, que nos foi ensinado, que é Caramuru que lutou junto aos portugueses durante a invasão francesa. A gente pode considerar essa visão uma visão ultrapassada?

Daniel Munduruku — ­Nós estamos em um processo de mudança, de uma revisão da historiografia brasileira. Você foi educada assim, eu também fui ensinado assim. Eu fui ensinado inclusive a não gostar de ser índio, porque o índio era visto como um empecilho.

Elizabeth Carvalho — ­­­Em escola de branco.
Daniel Munduruku — ­Em escola de branco. Empecilho pra sociedade brasileira, alguém que não tinha traquejo para o trabalho, que era preguiçoso portanto, que atrapalhava o progresso porque habitava um território muito grande e não sabia o que fazer com aquele território. E eu também fui educado assim e cheguei mesmo a não querer ser esse índio. Isso se reproduzia naquilo que hoje as pessoas estão chamando de bullying e que nós indígenas na escola sofríamos o tempo inteiro, porque nós não éramos iguais aos alunos da cidade. Nós vínhamos de uma outra realidade e isso fazia com que as pessoas criassem uma antipatia muito grande pela gente. Era necessário que a gente se tornasse outra coisa, outra pessoa. Então a gente negava efetivamente toda essa nossa tradição, essa nossa identidade para nos igualarmos àqueles que se diziam civilizados porque assim era uma forma de a gente ser aceita dentro da sociedade brasileira. E isso eu aprendi na escola. Foi a escola que ensinou isso. Pela minha aldeia eu não aprendia que o branco era ruim. Eu não aprendia que eu tinha que desrespeitar o outro. Mas eu diria que muitos professores, e era isso que eu queria dizer no final das contas, muitos professores que foram formados como você e eu, continuam repetindo a velha história, porque acham que foi daquele jeito, acreditam piamente nisso. Mas hoje em dia os novos historiadores, as pessoas que estão se qualificado agora para serem professores em escolas já vêm com uma outra visão. Eles já vêm com essa revisão da historiografia, já vêm ajudando a criança, o jovem a questionar essa mentalidade: de que o Brasil começa a partir de 1500. Na verdade, o nome, a palavra Brasil começa sim, nas não a Terra Brasil. A Terra Brasil já tinha outros 5 mil anos que era habitada, tinha toda uma história. Isso não interessava a quem escrevia a história que era sempre contada a partir da ótica do vencedor, do conquistador. Essa revisão que está sendo feita procura também dar voz àqueles que fizeram essa história: os indígenas, os negros, enfim, os imigrantes depois.

Elizabeth Carvalho — Você reconhece uma mudança grande nas políticas públicas nesses últimos anos?­­­
Daniel Munduruku — ­Há uma preocupação. Existem agora leis. Desde 2003 tem a lei que obriga trabalhar o conhecimento da África, a cultura africana nas escolas públicas e particulares. E desde 2008 existe uma lei também que obriga as escolas a trabalhar a temática indígena em sala de aula. Isso ainda está em processo, porque também tem todo um tempo para que o professor se acostume com a ideia de que ele precisa incluir os indígenas nos conteúdos. Para isso ele precisa se preparar. E foi se aprendendo durantes esses 20 anos de abertura política que era necessário incluir todos os grupos no contexto da escola, no contexto da educação para que o Brasil realmente seja um país democrático. Até então ele é apenas um ensaio.

Elizabeth Carvalho — ­­­Você falou ainda há pouco sobre a sua experiência em uma escola branca, sobre a discriminação que você passou, o problema de ser observado como uma pessoa diferente. Eu queria te pedir um confronto entre duas ideias ainda muito presentes na visão brasileira da questão indígena: uma é a da assimilação, ou seja, de que o índio tem que ser um igual, um cidadão brasileiro, um homem normal; e a outra é a visão do mito, do índio puro, se o índio se misturar deixa de ser índio, e portanto precisa ser preservado na sua pureza. Como é que os povos indígenas devem de fato serem reconhecidos na pluralidade brasileira.
Daniel Munduruku — ­O que eu penso é que os indígenas querem, sim, estar dentro do Brasil, querem contribuir com o Brasil.

Elizabeth Carvalho — ­­­Querem ter seu celular, querem ter seu computador, querem estudar.
Daniel Munduruku — ­Querem ter tudo isso, querem fazer parte de todo esse processo tecnológico e tudo mais, querem contribuir com seu conhecimento para o crescimento do Brasil, mas, mesmo tendo tudo isso, não querem deixar de ser o que são. Querem ser tratados como povos diferenciados, como povos que têm direito a manter a sua língua, a sua cultura, a sua espiritualidade, a sua economia, enfim, ter uma autonomia que lhes permita permanecerem indígenas, que lhes permita manter seu modo tradicional de educar seus filhos, tendo direito de participar, sim, da vida social brasileira, tendo direito de ir para a universidade, tendo direito de ter seu carro, de poder acessar a internet. Eu não vejo nenhum problema com relação a isso. O mais importante para garantir a continuidade desses povos é o Brasil, enquanto instituição, promover a conscientização dos próprios indígenas para isso, de que os indígenas podem fazer parte de toda a história brasileira sem querer abrir mão ou sem ter que abrir mão de sua identidade.

Elizabeth Carvalho — ­­­Das suas tradições.
Daniel Munduruku — ­Das suas tradições.

Elizabeth Carvalho — ­­­Entre essas tradições, talvez a mais importante seja a tradição da história oral. Essa é uma tradição que tende a desaparecer?
Daniel Munduruku — Na verdade, a cultura se transforma. Nenhuma cultura é pura, nenhuma cultura é absolutamente sem influência de outros povos, de qualquer coisa. A cultura é dinâmica. O que eu acho que os indígenas de hoje fazem é uma atualização. Eles vão criar formas de mostrar que a oralidade é fundamental juntamente com todas as outras ­maneiras de oralidade. A televisão também é oralidade, só que ela está aliada com imagem.

Elizabeth Carvalho — ­­­Já a internet nem sempre.
Daniel Munduruku — ­A internet nem sempre, mas muitos indígenas estão dominando a técnica do vídeo, de fazer filme. E fazer filme dos velhos contando histórias. Então de uma certa maneira a televisão acaba se adaptando, sendo adaptada a esse processo de educação. E esses jovens, que depois serão os velhos das crianças, precisam adaptar esse método educativo milenar para uma linguagem nova, para que não se perca nem a oralidade antiga porque a oralidade não é só fala. Oralidade é dança, oralidade é canto, oralidade é o sonho, tudo isso é uma coisa só.

Elizabeth Carvalho — ­­­O século XXI viu emergir um movimento muito forte de afirmação indígena na América Latina. A CAOI, por exemplo, que é a Coordenação Andina de Organizações Indígenas, congrega indígenas de diferentes etnias de cinco países diferentes. Pode-se dizer que houve um avanço semelhante no movimento indígena brasileiro?
Daniel Munduruku — ­Até a década de 1970 havia muito essa ideia do índio preocupado com a sua própria comunidade. Só a partir da década de 1970 é que os indígenas começaram a perceber que havia outros povos. Até então eles só conheciam os povos vizinhos, muito próximos, amigos ou inimigos às vezes, mas não tinham a noção, a dimensão de que quem vivia lá no norte tinha um parente indígena no sul do Brasil. Foi o movimento indígena que começou a organizar, essa visão pan-indígena. Muito disso graças à atuação de líderes como Ailton Krenak, Miton Terena, Mario Juruna, entre outros.

Elizabeth Carvalho — ­­­Raoni também?
Daniel Munduruku — ­Raoni. Que deu essa visão mesmo pan-indígena pro Brasil e isso fez com que os chefes se reunissem, os pajés se reunissem em alguns cantos por aí e começassem a dividir seu conhecimento e suas preocupações, suas demandas. Quando o movimento surgiu, já não era mais a preocupação com um povo específico, era com os povos indígenas do Brasil como um todo. E aí teve a experiência da UNI, União das Nações Indígenas, que foi quem protagonizou toda uma transformação desse olhar do Brasil. 

Elizabeth Carvalho — ­­­Nos anos 70.
Daniel Munduruku — ­70, 80. A UNI surgiu em 82 quando um grupo de estudantes de diferentes povos, diferentes regiões resolveu criar um time de futebol chamado União das Nações Indígenas. Isso não foi muito bem visto pelos militares da época e começaram a querer desfazer aquele grupo, que nem era um grupo político, era um grupo recreativo.

Elizabeth Carvalho — ­­­Em que região?
Daniel Munduruku — ­Em Brasília. Claro, ali no centro do poder. E esse grupo resolveu peitar aqueles que queriam desfazer. E aí criaram um movimento organizado, começaram a discutir, começaram a atinar para todas essas questões políticas e a partir daí esse grupo foi voltando para as suas comunidades e criando toda uma série de eventos, reuniões e assembléias que culminaram na criação da UNI, do movimento indígena político e disseminou com isso uma série de ações junto com a sociedade civil organizada aqui no Brasil. Junto com trabalhadores, junto com sindicatos, junto com as igrejas, com a Ordem dos Advogados, universidades,foi criando toda uma série de ações lutando pelos direitos dos povos indígenas que naquela ocasião era sobretudo o direito à terra. E aí esses grupos passaram a crescer bastante e criaram mesmo toda essa movimentação que culminou com a aprovação do capítulo 232 da Constituição Federal que deu ao indígena uma visibilidade muito maior dentro da sociedade brasileira. E hoje existem milhares de organizações indígenas espalhadas pelo Brasil, as ONGs indígenas e que fazem trabalho dentro das suas comunidades e que procuram, na verdade, ser capitaneadas por outras organizações, outras confederações como a Coiab no norte do Brasil, que é a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, como é a Apib, que é a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, que busca articular mesmo as instituições para que as demandas sejam trazidas como um bloco. 

Elizabeth Carvalho — ­­­Mas no Brasil são 250 povos e 180 línguas. Isso não dificulta muito essa visão do conjunto, essa capacidade de organização.
Daniel Munduruku — ­Há uma dificuldade real por conta da questão geográfica, da questão lingüística e das questões culturais e que batem frontalmente com as questões políticas, porque cada povo, cada grupo é um grupo autônomo. O povo Munduruku é um povo autônomo, o povo Kayapó é um povo autônomo. Então não dá simplesmente pra juntar o povo Munduruku, Kayapó, Caingangue, Guarani e achar que dali vai sair um consenso. Não dá. Não dá para fazer política pública para índio no Brasil. Não dá para ter uma organização que fale para o índio. Cada povo é um povo e cada povo sempre tem que ser tratado de uma maneira específica e especial. Isso não significa que o Munduruku não consiga se reunir com o Kayapó, com o Caingangue ou com qualquer outro povo. O bem viver, como se fala, está presente na filosofia dos povos indígenas.

Elizabeth Carvalho — ­­­Todos?
Daniel Munduruku — ­Todos. Agora, cada um desses povos tem a sua maneira, a sua didática, o seu modelo pedagógico para fazer isso nos seus membros. E se isso vai depois escorrer um pouco pra sociedade brasileira, é a própria sociedade brasileira que precisa fazer um esforço para compreender essa diversidade. Esses 250 povos estão fazendo um esforço grande para compreender o Brasil. E alguns correndo o risco de perder a própria identidade para poder compreender, aceitar e se envolver com o Brasil. O Brasil faz muito pouco esforço, embora seja um país muito mais rico, muito mais poderoso, de entender a diversidade que ele mesmo tem. Então o ideal é que o Brasil se esforce, sim, crie políticas para que esses povos possam se manter como povos, como cultura diferenciadas e possam contribuir a partir das suas diferenças pro Brasil. Caso contrário, o Brasil vai entrar numa preguiça cultural que às vezes é até dita que os indígenas tem, mas na verdade quem tem o risco da preguiça é o próprio Brasil que não tem aceito essas diferenças todas.

Elizabeth Carvalho — ­­­A política de cotas funcionou pras comunidades indigenas?
Daniel Munduruku — ­Eu sou favorável às políticas de cotas. É uma política afirmativa necessária. Os indígenas não teriam outras oportunidades, ou pelo menos muitos deles não teriam oportunidade de estudar não fosse a política afirmativa. Agora, o resultado efetivo dela a gente não vai poder medir assim de imediato. Eu creio que muitos jovens estão aproveitando a oportunidade para se enriquecerem culturalmente e com a expectativa de voltarem a seus povos e darem uma contribuição. Obviamente que não dá para saber o que alguém formado em Filosofia com o pensamento ocidental vai poder contribuir dentro da sua comunidade. Inclusive é isso que faz a educação indígena ou educação para os indígenas, como ela tem sido aplicada dentro das comunidades. Ela cria uma classe social diferente. O professor indígena passa a ser uma pessoa privilegiada na comunidade.

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Belo Monte: Presidente do IBAMA admite em off não respeitar os indios

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Todos precisamos de Deus, seja numa floresta sem fim, seja num condomínio fechado

Retirado do site:

http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/303/ronaldo-lidorio/conplei

Entrevista com Ronaldo Lidório 

  Precoce é a pessoa que faz alguma coisa antes do tempo esperado. É o caso do mineiro de Nanuque que se converteu aos 7 anos de idade durante uma escola bíblica de férias ministrada pela própria mãe; que se despertou para o trabalho missionário aos 14 anos ao ouvir uma pregação do próprio pai; que ingressou num seminário teológico logo após completar 18 anos; que se formou em teologia e casou-se um mês depois de comemorar o 23º aniversário; que arrumou as malas e se mudou com a esposa (ele com 26 anos e ela com 24) para uma aldeia bem no interior de um país africano para prestar assessoria à igreja Konkomba em Gana e consultoria antropológica e missiológica a países da África e da América do Sul; que traduziu o Novo Testamento inteiro para uma das línguas dos Konkomba em sete anos e meio; cujo nome já está no Who’s Who in the World. Desde 2001, Ronaldo Almeida Lidório, 40 anos, casado com a enfermeira e obstetra Rossana Vivianne Gassett Lidório, 38, tem se dedicado ao plantio de igrejas, à análise lingüística e tradução da Bíblia e ao desenvolvimento humano e social na Amazônia indígena. O casal tem uma filha de 12 anos e um filho de 10, e mora em Manaus. Esta entrevista começou em Viçosa, MG, logo após o curso de antropologia missionária que Lidório ofereceu no Centro Evangélico de Missões (CEM), em setembro de 2006, e terminou em São Gabriel da Cachoeira, AM, imediatamente antes de o jovem missionário embrenhar-se mais uma vez numa área indígena.

Ultimato — O que você é: missionário, missiólogo, antropólogo, indigenista?
Lidório — A convicção do chamado ministerial é o que enche meu coração. A antropologia e a missiologia são instrumentos de trabalho muito úteis em diversas situações e projetos, porém estar envolvido com a missão de Deus para a minha vida é insubstituível. Nas palavras de Woodford, títulos e funções não saciam nossa alma. Apenas a certeza de seguir o caminho de Deus o faz. Sou missionário.

Ultimato — A população indígena, que diminuía a cada ano no Brasil, voltou a crescer. Qual é a explicação?
Lidório — Calcula-se que havia 1,5 milhão de indígenas em 1500, os quais somam hoje pouco mais de 350.000, configurando um dos maiores processos etnofágicos nos últimos 500 anos. Porém, a população indígena, que diminuía a cada ano, voltou a crescer de forma animadora nas últimas décadas. A existência de programas de saúde que previnem e tratam as doenças em geral, e também as mais específicas como a malária, possuem uma contribuição acentuada. Programas de subsistência têm auxiliado ao prover mais proteínas e vitaminas em áreas indígenas onde o alimento se resumia quase que puramente ao carboidrato. A presença missionária também é responsável por inúmeros programas de desenvolvimento humano porém sua principal marca social é a valorização da língua materna, provendo grafia e gerando programas de alfabetização que asseguram a identidade lingüística e, conseqüentemente, cultural, em diversas etnias. Há casos, como o dos Dâw do Amazonas, em que os missionários da Associação Lingüística Evangélica Missionária (ALEM) realizaram um verdadeiro resgate lingüístico-cultural. Era uma etnia que pouco falava sua língua, vivia dispersa e excluída em um contexto urbano e quase perdera por completo sua identidade indígena. Ao encontrá-los hoje, vivendo em sua aldeia com alegria e dignidade, é visível o sentimento de cidadania e humanização. Falam sua língua com prazer e a ensinam aos seus filhos. Viver sua própria cultura os define como gente perante um universo onde outros também expressam abertamente seus valores culturais. Identidade cultural faz bem à alma.

Ultimato — Entre os indígenas há algum controle de natalidade?
Lidório — De forma geral ter filhos é sinônimo de abundância e força social, portanto não há preocupação em evitá-los. Porém, em casos especiais que envolvem alguma limitação de saúde ou algum tabu ligado a uma pessoa ou a um clã, desenvolve-se o controle de natalidade. No caso dos Miranha, por exemplo, o controle é praticado pela observação dos ciclos da lua em relação ao período fértil feminino. Para os Tariano, pode-se também evitar uma gravidez indesejada através de poções xamânicas que funcionam como contraceptivos.

Ultimato — Você está fazendo o mapeamento da região amazônica. Qual a finalidade do mapeamento?
Lidório — Estou envolvido na pesquisa de algumas áreas. O objetivo central é identificar ajuntamentos humanos com graves carências sociais e espirituais. As estatísticas convencionais que definem os agrupamentos indígenas não expressam em profundidade a situação social, o índice de preservação lingüística, o relacionamento intercultural com outras etnias da região e com os não-indígenas, entre outros. Esses dados são importantes para o desenvolvimento de programas cujo objetivo seja contribuir de maneira relevante com esta realidade. A ONG ATINI, por exemplo, que luta contra o infanticídio que ocorre em abundância no contexto indígena brasileiro, é resultado de longa observação por parte da JOCUM dessa prática social entre o povo Suruwahá e outros grupos. A pesquisa ajuda-nos a identificar os pontos de tensão e a participar na solução de conflitos.

Ultimato — Quantos grupos indígenas temos hoje no território nacional? Pode haver outros?
Lidório — Os dados divergem de uma listagem para outra por considerarem, ou não, alguns grupos ainda não reconhecidos oficialmente como indígenas. Creio ser seguro, porém, pensarmos em 258 grupos indígenas com identidade definida no Brasil, além de outros cinqüenta ainda isolados. Grupos isolados são aqueles que não possuem contato com o mundo externo, e normalmente não se sabe se são uma variação cultural de um grupo já reconhecido ou se são novos. Muitos grupos indígenas estão em fase de extinção — extinção não necessariamente populacional, mas cultural e lingüística. Aryon Rodrigues estima que, na época da conquista do Brasil, eram faladas 1.273 línguas, ou seja, perdemos 85% de nossa diversidade lingüística em 500 anos. Das línguas sul-americanas, 27% já não são aprendidas pelas crianças. Esta é uma extinção silenciosa que mata não apenas a língua mas também a identidade e a esperança de muitos povos.

Ultimato — Você é a favor da tradução da Bíblia para grupos lingüísticos reduzidos, com uma população de cem falantes, por exemplo? Por quê?
Lidório — O critério bíblico segundo o qual uma alma vale mais do que o mundo inteiro mostra que na economia de Deus a carência de um único indivíduo é o suficiente para qualquer esforço. E, se observarmos a tradução bíblica de perto, veremos que ela não é um processo isolado, mas uma atividade associada à grafia de uma língua, sua análise, desenvolvimento de cartilhas, alfabetização e fomentação de registros históricos e culturais pelo próprio povo, que contribuem para sua afirmação humana e social. Quando um povo lê a Bíblia em sua língua materna, este exercício possui um profundo valor tanto espiritual quanto sociocultural. Desta perspectiva, talvez a tradução bíblica seja ainda mais prioritária para os grupos minoritários, mais suscetíveis à perda lingüística e cultural, do que para os grandes grupos. Na África tivemos contato com o casal Stevenson, que traduzia a Bíblia para um grupo de quatorze pessoas cuja língua era uma variação lingüística dos Bikuln. Gastaram ali mais de 25 anos de suas vidas e, ao entregarem um dos livros do Novo Testamento nas mãos de um jovem da tribo, ele afirmou que entendera que o amor de Deus não é proporcional ao tamanho da tribo, pois Deus ama igualmente uma grande etnia e um pequeno grupo de quatorze pessoas. Creio que ele entendeu bem.

Ultimato — O sonho indígena de uma terra sem males pressupõe que os indígenas acreditam na vida após a morte? Eles têm alguma noção da ressurreição do corpo?
Lidório
— Várias culturas indígenas possuem uma cosmologia definida pelo aquém e pelo além, a qual inclui o conceito de vida eterna em uma terra sem males. Esta cosmovisão mais escatológica da vida pode ser identificada não apenas entre os indígenas mas também em diversos outros grupos espalhados pela terra. Os Konkomba de Gana crêem que o pacham é um lugar para onde irão os que morrem já bem velhos e com muitos filhos. Os Chakali falam sobre o báthan como sendo o destino pós-morte de todo homem, sendo que aqueles que não enganaram o próximo terão comida em abundância. O restante viverá da boa vontade do primeiro grupo. A convicção de uma terra sem males entre os indígenas brasileiros é, em alguns casos, tão enfática que pode ser relacionada como uma das possíveis causas da abundância de suicídios. Quando um jovem se vê sem saída, ou envergonhado, ou ainda profundamente melancólico, por vezes opta pelo suicídio, não apenas como uma maneira de fugir do conflito pelo qual passa, mas movido também pela convicção de que o mundo pós-morte será melhor, sem dor. Há poucos registros, porém, sobre crenças ligadas à ressurreição do corpo em culturas indígenas.

Ultimato — Onde você passa mais tempo: com a família, em Manaus; com os indígenas, em suas tribos; ou em viagem pelos rios da Amazônia?
Lidório — Neste ano nos mudamos para Manaus por ser um ponto central para nossas viagens e atividades no Norte. Como faço várias viagens por ano, dentro e fora do Amazonas, passo muito tempo fora de casa. As viagens fluviais na Amazônia são as mais longas, pois envolvem distâncias consideráveis. Porém aproveitamos bastante o tempo juntos em família. Quando estamos em casa, nossos filhos, Vivi e Ronaldo Junior, têm prioridade de tempo e atenção. Também temos um compromisso de passar de dois a três meses, a cada dois anos, na África para treinamento de liderança.

Ultimato — Como você se sente fora da chamada civilização, em plena mata, em contato com a beleza exuberante da natureza não poluída?
Lidório — Tanto na África quanto na Amazônia, o sentimento de estar em um lugar remoto com pouca intervenção humana é fascinante. Observar o verde intocado da Amazônia, por exemplo, nos faz pensar muito no poder de Deus, Criador de algo tão belo e cativante. No entanto, depois de viver nesses ambientes mais distantes por algum tempo, perde-se um pouco do romantismo e os desconfortos da privação das facilidades nas quais fomos criados passam a ser mais sentidos. Em Gana, na África, passávamos até seis meses na aldeia viajando apenas duas vezes por ano para uma área urbana. Quando chegávamos à capital, Accra, meu maior prazer era apertar um interruptor e ver a luz acender. O de Rossana era abrir uma torneira e ter água corrente. Quando perguntávamos ao meu filho caçula, ainda pequenino, do que ele sentia falta na aldeia, ele respondia: Do McDonald’s!

Ultimato — Segundo dados do governo, em 2005 16.700 quilômetros quadrados da floresta amazônica foram transformados em terras agricultáveis, com a derrubada de 1 bilhão de árvores. A Amazônia poderá vir a ser uma região independente do Brasil por sua importância no cenário mundial?
Lidório
— A destruição da floresta é assunto preocupante, porém não ocorre de maneira uniforme na Amazônia. Em algumas áreas indígenas, como no Alto Rio Negro, por exemplo, não é perceptível. Nos arredores de Porto Velho, Rondônia, é evidente. Creio que o problema está localizado especialmente próximo a centros urbanos, onde se escoa mais facilmente a madeira, e em setores de expansão agrícola, onde há grandes queimadas. Não creio que a Amazônia venha a ser independente justamente por sua importância nos cenários mundial e, conseqüentemente, nacional. Penso que o desenvolvimento da política de conservação ambiental só acontecerá quando ela for trabalhada com a população local — que é a única capaz de coibir o desmatamento, seja por não praticá-lo, seja por fiscalizar aqueles que o praticam. Políticas externas dissociadas de uma consciência local não surtirão efeito.

Ultimato — A relação entre a FUNAI e as missões indígenas está melhor agora?
Lidório
— Minha impressão é que há uma boa relação que caminha para se consolidar. O trabalho da FUNAI é relevante e desafiador, tendo em mente a diversidade étnica indígena no Brasil e sua função de fiscalizá-la. Hoje vivemos um momento em que também cresce o movimento missionário formado pelos próprios indígenas. O CONPLEI (Conselho Nacional de Pastores e Líderes Indígenas) tem demonstrado de forma acentuada essa força. Costumo dizer que a necessidade humana é a mesma, em qualquer cultura e contexto, e é preciso juntar forças para minimizá-la. Apenas a roupagem muda. Ao lembrar-me do indígena excluído e discriminado, sem alimento nem dignidade, nas margens do rio Solimões, percebo nele a mesma dor e constrangimento do rapaz urbano e também excluído, sentado na calçada em uma rua de Recife, invisível na multidão. Jesus, ao falar sobre um homem judeu caído ao longo do caminho e socorrido por um samaritano, nos aponta que as crises humanas são idênticas e ocorrem em qualquer sociedade. Muda apenas a roupagem externa, como língua, cultura, cosmovisão e contexto.

Ultimato — Quando o reitor do Seminário Presbiteriano do Norte sugeriu que você trancasse a matrícula e passasse um ano na África, para testar a sua vocação missionária, como você reagiu? Foi nessa ocasião que você começou a se interessar pela tradução do Novo Testamento na língua dos Konkomba de Gana e Togo?
Lidório
— O rev. Francisco Leonardo é um homem de muita influência em minha vida. Sua conciliação de conhecimento teológico com piedade e vida cristã é marcante. Quando sugeriu que eu testasse minha vocação passando um ano na África juntamente com outro colega, Alfredo de Souza, recebi como uma oportunidade dada por Deus, pois poderia ver de perto missionários experientes que atuavam em plantio de igrejas, tradução da Bíblia e desenvolvimento social. Esta experiência foi confirmadora e percebi que nada mais encheria meu coração. Ali, vendo o quanto a Palavra de Deus abençoa um povo, nasceu o desejo de trabalhar também com tradução bíblica. Certa ocasião vi uma família inteira, da etnia Balanta em Guiné-Bissau, sentada ao redor de uma fogueira numa noite sem luar, lendo atentamente alguns trechos sobre Jesus nos Evangelhos e traduzindo como lições para sua vida diária. Esta cena foi transformadora. Todos nós precisamos de Deus. Seja em uma floresta, seja em um condomínio fechado.

Ultimato — Qual foi o trabalho que você e Rossana desenvolveram em Gana na década de 90?
Lidório
— Fomos para Gana em 1993 e lá permanecemos até 2001, quando viemos trabalhar na Amazônia. Na África atuamos com a etnia Konkomba-Limonkpeln, uma das quatro etnias Konkomba, com plantio de igrejas e tradução bíblica, e desenvolvimento de projetos sociais na área de educação e saúde. Pela graça de Deus há hoje ali 23 igrejas, pastoreadas por cinco pastores Konkomba. Várias delas foram plantadas por iniciativa do próprio povo. A clínica médica, que atende mais de 6 mil pessoas por ano, e as escolas, que educam mais de 400 crianças, são totalmente dirigidas pelos Konkomba. Um dos ministérios naquele lugar que encheu nosso coração foi a tradução do Novo Testamento para a língua Limonkpeln. Fomos despertados para essa necessidade porque no início os crentes vinham de aldeias distantes para participar de estudos bíblicos na aldeia onde morávamos, Koni. Passavam alguns dias conosco e memorizavam versículos que transmitiriam a outros. Uma mulher veio de Kadjokorá, uma aldeia que ficava a quatro dias de caminhada. Ela também memorizou os treze versículos e participou do encontro. Voltando para sua aldeia, depois de dois dias de caminhada, ela esqueceu um dos versos. Não pensou duas vezes. Voltou aonde estávamos e disse que estava ali porque a Palavra de Deus era preciosa demais para se perder ao longo do caminho. Memorizou de novo o verso e recomeçou sua jornada de quatro dias de caminhada para casa. Naquele momento nos comprometemos com a tradução do Novo Testamento para o Limonkpeln, que, pela graça de Deus, foi entregue em outubro de 2004 em uma linda festa com cerca de mil Konkombas louvando a Deus sob a sombra de algumas mangueiras.

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A igreja indígena, o que é isso?

Retirado do site:

http://www.ultimato.com.br/conteudo/a-igreja-indigena-o-que-e-isso/conplei/2

De fato o encontro começou uma semana antes e terminou uma semana depois dos dias oficiais (4 a 7 de setembro). Antes do encontro houve um curso sobre a prevenção ao alcoolismo (Programa Festejando a Libertação) com a participação de muitos irmãos indígenas. Após o encontro deu-se início a uma capacitação bíblica (Capacitação Bíblica Missionária Indígena) para outros que ficaram. Um tempo muito bem aproveitado. O local do encontro (Acampamento Monte Sião, da Igreja Presbiteriana de Manaus) foi perfeito: retirado, verde e bem espaçoso.

Louvamos a Deus por todos que oraram e investiram neste relevante evento. A semente há de germinar, mesmo em lugares distantes por onde jamais passaremos.

Louvamos a Deus por todos que se juntaram a nós para o trabalho prático construindo, limpando, organizando, recepcionando, preparando lanches, transportando, cozinhando, acompanhando os indígenas nas viagens, vigiando o acampamento e fazendo tanto mais. Saibam que vocês foram usados por Deus e cumpriram a missão, servindo ao Cordeiro Jesus.

Um grupo de 26 irmãos indígenas procurou-me logo no dia de saída. Informaram que estavam iniciando a viagem de volta com um compromisso: partilhar o que viram e experimentaram naqueles dias com as cinco principais aldeias da sua etnia. Somente após fazerem isto regressarão para suas casas.

Deus é bom e fiel.

Ronaldo Lidório é organizador de Indígenas do Brasil – avaliando a missão da igreja e “A Questão Indígena – uma luta desigual” (no prelo). É doutor em antropologia pela Royal London University e atuou durante 9 anos no norte de Gana, na África, como plantador de igrejas, tradutor bíblico e coordenador de programas sociais nas áreas de saúde e educação.

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